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quinta-feira, 26 de junho de 2014

Publicação da Nasa 'Arqueologia, antropologia e comunicação interestelar' não é o que parece.




A publicação "Arqueologia, antropologia e comunicação interestelar" (Archaeology, Anthropology, and Interstellar Communication) recentemente lançada pela NASA, agência espacial americana, causou certo 'frisson' em alguns meios de comunicação e blogs por ai (principalmente nos dedicados aos UFOS). Esta agitação, feliz ou infelizmente, me parece pelos motivos errados.


Com as recentes descobertas de inúmeros planetas, inclusive em configurações que vão de encontro ao que se sabia anteriormente, a busca por vida fora da terra ganhou força e atualmente empolga não só os antigos entusiastas da 'causa alien' mas também pesquisadores sérios.


Talvez esta empolgação tenha contribuindo para inflamar os ânimos dos leitores de manchetes, aqueles que se apegam aos títulos sem se ater ao conteúdo.


Kepler 186f é um exemplo de exoplaneta recentemente descoberto. Com um tamanho aproximado ao da terra e dentro da zona habitável de sua estrela ele deixou muita gente empolgada. O problema é que ele está a  500 anos luz da Terra na constelação de Cygnus http://science.nasa.gov/science-news/science-at-nasa/2014/17apr_firstearth/


Tal leitura superficial da publicação pode dar a entender que a NASA, mais especificamente seu projeto SETI, fez contato com os 'seres verdinhos', 'Grays' ou 'Ashtar Sheran' e que estamos na eminência de um novo despertar civilizatório.


A publicação não tem absolutamente nada ver com isso. Ela é, na verdade, um compêndio de vários artigos de diferentes autores, PHD’s em suas respectivas áreas de atuação, que vão do relato das experiências do programa SETI e sua história até os estudos e especulações sobre inúmeros campos como a Antropologia, Psicologia, Sociologia, Matemática, Física e seu uso na busca por sinais de comunicação inteligente fora da Terra (ETI).


Perguntas como "o que é a vida?", "o que é inteligência?", "onde procurar?", "como comunicar-se?" são temas fundamentais discutidos na publicação pois o fato de não termos estabelecido contato com nenhum ser até agora pode tanto significar sua inexistência quanto o fato deles não estarem interessados em mostrar-se, sua incapacidade de comunicar-se ou mesmo nossa incompetência, não 'olhando' nos lugares certos ou não entendendo suas mensagens, além de outros fatores.


Sob esta perspectiva não encontrar sinais de ETIs parece mais palatável aos que anseiam pelos 'seres das estrelas'.


A única referência que temos



Mas para estudar uma suposta civilização extra-terrestre o que precisamos saber? Como compreender seu comportamento? Onde procurá-la?


Como tudo que temos até hoje somos nós mesmos uma maneira de estudar as formas de encontrá-los e compreendê-los é estudando o comportamento dos grupos animais e humanos, sejam estes modernos ou antigos, civilizados ou 'não-civilizados'. Um exemplo é o estudo de como escritas antigas, como os Hieroglifos, foram decifrados e por que outras nunca o foram como por exemplo Escritos Indus, Linear A e Elamite, Khitan e Escritos da América Pré-colonização.


Um caso bem interessante é O Manuscrito Voynish. Datado como sendo do século XV este manuscrito é um completo mistério para os linguistas, matemáticos e tradutores. Aparentando ser um livro de alquimia e cheio de ilustrações sua escrita é toda codificada. O mistério é tão grande que a hipótese deste ser uma farsa não é descartado.


O Manuscrito Voynish é uma publicação medieval cercada de mistérios. Ninguém nunca conseguiu decifrar seu conteúdo.  http://pt.wikipedia.org/wiki/Manuscrito_Voynich


Por estes exemplos, que foram produzidos aqui em nosso planeta por pessoas como nós, podemos ver quão desafiadora é a arte de ler e interpretar códigos e mensagens.


Analisando os conceitos de símbolo e significado podemos, por exemplo, adotar melhores formas de interpretar sinais que, em princípio, poderiam ser confundidos com ruídos.


Nossa posição ‘antropocentrista’ pode, por exemplo, limitar-nos a procurar por certos aspectos que podem não ser os corretos como formas hominídeas, linguagem escrita ou mesmo seres baseados em carbono.


O ambiente extra-terrestre pode ser tão diverso que nada do que conhecemos hoje talvez encaixe-se no que eles realmente são.


O que é inteligência?



Nos acostumamos a acreditar que apenas os seres humanos são providos de inteligência e que seria este mesmo tipo de 'inteligência' aquela a ser buscada fora da Terra.


Porém uma análise mais detalhada das criaturas que vivem em nosso planeta nos mostra que existem inúmeros seres inteligentes, não só o homem.


Possuímos apenas um tipo específico de inteligência e ela, necessariamente, não é garantia de sobrevivência. Vide as inúmeras espécies que com diferentes formas de inteligência estão a muito mais tempo no planeta que nós.


Vale lembrar também que construir armas de estruição e massa em larga escala, que podem destruir várias vezes o planeta ou poluir a própria água que se bebe ou o ar que se respira estão muito longe de serem atitudes inteligentes, mas que efetivamente enfrentamos todos os dias.


Sendo assim devemos considerar na conta para as buscas fora da Terra a questão 'o que é inteligência?'.


Outro fato a considerar é que talvez nós mesmos não teríamos capacidade intelectual de reconhecer outras tecnologias que poderiam estar transmitindo sinais neste exato momento, mas que passariam despercebidas por nós.


Fazer ou não fazer contato? Eis a questão!



Um ponto interessante discutido é: devemos ou não procurar por inteligência extra-terrestre?


Alguns argumentam que enviar sinais para uma outra civilização pode ser perigoso pois diz a eles que nós existimos ou mesmo nossa localização, o que pode ser perigoso.


Apesar do debate sobre raças suficientemente avançadas serem ou não pacíficas algumas vozes dentro da ciência acreditam que é melhor ficarmos 'quietinhos' em nosso canto da galáxia, sem chamar a atenção de possíveis civilizações predadoras.


Civilizações extremamente avançadas poderiam extrair energia diretamente das estrelas de seu setor galático utilizando Esferas Dyson e com isso possuir energia suficiente para viajar e conquistar outros setores mais distantes. Não chamar a atenção deles seria a melhor política segundo alguns.


Outros afirmam que mesmo o simples fato de receber uma mensagem pode ser perigoso pois não sabemos ao certo como a população irá encarar o fato de o homem não estar só no universo. Uma grande desordem social poderia nascer desta revelação.


Comunicação extra-terrestre: um desafio quase paradoxal



Mas deixando de lado as polêmicas sobre intenções deste ou daquele uma questão fundamental surge: como nos comunicarmos?


Se enviarmos imagens de nosso planeta ou símbolos, será que eles terão ‘olhos’ para enxergá-las? Se enviarmos sinais binários (0’s e 1’s) como os que os computadores entendem eles conhecerão esta linguagem? E se conhecerem seu conceito (ligado ou desligado) saberão interpretar da mesma forma que nós os códigos?


Se enviarmos sons, como os que estão em discos de ouro nas sondas Voyager, os aliens terão ‘ouvidos’ para escutá-los? O ambiente em que vivem terá condições de propagar o som?


E mesmo que  recebam todas estas informações eles saberão interpretá-las?


A mesma pergunta podemos fazer a nós mesmos. Saberemos interpretar a cultura, a língua, o conhecimento alienígena? Talvez uma pergunta mais fundamental ainda seja: eles teriam estes conceitos de cultura, língua, conhecimento ou seria algo totalmente diferente?


Devemos lembrar que todos os seres vivos na Terra estão ligados de uma forma o outra pela evolução. Nosso genes não diferem tanto dos de um macaco ou de uma cenoura mas um ser ‘nascido’ em outra parte do Universo não teria ligação alguma com esta cadeia, o que pode ser altamente desafiador para nós e para eles.


Uma linha de pensamento muito adotada é a utilização de ‘informações fundamentais universais’ para a comunicação. Esta ideia é baseada no princípio de que as leis físicas e os conceitos matemáticos são os mesmos em qualquer parte do Universo e, desta forma, qualquer ser ‘inteligente’ poderia compreendê-las.


Como exemplo podemos citar a velocidade da Luz, as frequências de emissão de objetos astronômicos (como estrelas e pulsares), a gravidade, os elementos químicos, o conceito de números primos, o Pi, o número e e etc.


Pi é um número constante obtido pela relação entre o raio e o comprimento de um círculo qualquer. Se você tirar as medidas da tampa de um pote, de uma bola, da Terra ou de um planeta onde supostos alienígenas vivem o valor de Pi será exatamente o mesmo.


Este tipo de discussão é profundamente abordado no livro e coloca no leitor questionamentos muito interessantes.


Conclusão



Apesar da publicação ter como tema principal a busca por sinais de Inteligência Extra-terrestre, ela aborda temas muito 'humanos' e acaba por fazer um profundo mergulho nas raízes do conhecimento de nós mesmos, de nossas origens e de como nos relacionamos entre nós e com civilizações já extintas. Falar de extra-terrestres acaba sendo falar de nós mesmos.


A quantidade de informações interessantes e questionamentos são muito grandes no livro e este post apenas 'arranha' alguns dos temas abordados.


Goste você ou não do assunto 'Busca por Inteligência Extraterrestre' a publicação é interessantíssima pois discute temas que talvez não nos importássemos tanto se não fosse por nosso desejo em descobrir outras civilizações.


quarta-feira, 5 de março de 2014

Como idéias simples podem levar a descobertas científicas



Muitas vezes idéias simples são a fagulha para grandes coisas, seja para descobertas científicas, seja para impulsionar um sentido para a vida.

Nesta apresentação da TED Ed, Adam Savage, do programa MYthbusters (Caçadores de Mitos) fala sobre dois exemplos espetaculares de descobertas científicas que nasceram de perguntas intrigantes e criativas qualquer um poderia ter feito: o cálculo da circunferência da Terra em torno de 200 aC por Eratóstenes e a medição de Hippolyte Fizeau da velocidade da luz em 1849.

Observação: Você pode escolher a legenda do vídeo pelo botão 'Captions'

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Sermões das Pedras*

Como sempre, voltamos aos gregos e suas antigas histórias. Mas desta vez falaremos acerca do tempo! O tema Tempo sempre fez parte das meditações humanas, e com ela a dúvida sobre a idade do cosmos. Tais divagações sobre o início e o fim não deixaram de ser pensadas por estes e suas idéias influenciaram muitas gerações adiante.

Universo Pulsante

O caso específico aqui é o tempo ou idade do Universo. Para gregos como Platão, Aristóteles e Pitágoras o Universo era cíclico, ou seja, florescia e morria, tornando a nascer novamente, como uma fênix cósmica.

Esta idéia do Universo cíclico era predominante na Grécia antiga e foi extendida para o tempo por Aristóteles. Porém tais idéias não passavam de especulações ou filosofia, já que não possuíam meios para as verificar.

Este tempo cíclico influía diretamente, segundo os gregos, na vida cotidiana do homem. Uma frase que ilustra bem este pensamento cíclico ou infinito pode ser observado na palavra de Eudemo de Rodes “Se acreditamos nos pitagóricos, tudo acabará voltando na mesma ordem numérica e eu voltarei a conversar com vocês, com o cajado na mão, e vocês se sentarão onde estão agora, e assim será com tudo mais”. Esta frase pode nos fazer lembrar de outro filósofo, Friederish Nietche, e seu eterno retorno. Em geral as teorias de um Universo ou existências cíclicas dão conforto às pessoas, retira de suas mentes a idéia de que tudo é finito, inclusive elas mesmas, algo demasiado incômodo.

Segundo Timothy Ferris, a idéia de um Universo de tempo infinito foi prejudicial no sentido do estímulo a se procurar calcular a idade do Universo, enfraquecendo inclusive a idéia de que o mundo pode evoluir. Um tempo infinito é problemático neste sentido. Porém em minha visão particular isto não é tão problemático, já que um Universo que se destroi e renasce ciclicamente é muito diferente se um Universo de tempo infinito, onde não existe começo nem fim como um contínuo. Neste caso o conceito de que as coisas podem evoluir é seriamente comprometido e são inúmeros os paradoxos e inconsistências.

A quebra do paradigma

Para Ferris, a quebra do paradigma veio com “a ascensão do modelo cristão do universo” que concebia um início e um fim determinados, trazendo a idéia de que a idade da Terra é finita e mensurável. Mas justamente com este conceito veio outro, o de finalidade, ou seja, de que o Universo era uma obra de um ser supremo (Deus) e que este Universo possuía uma finalidade.

Na visão antropocentrista cristã, descobrir a idade da Terra seria descobrir a idade do Universo, mas como medir tal idade já que desconheciam a geologia (pelo menos como a conhecemos hoje), os fósseis e outros conceitos indispensáveis para tal? A resposta seria refazer a cronologia baseada das escrituras, desde Adão até os dias atuais. Foram muitos os que realizaram tal tarefa, Eusébio, Kepler, Newton, até que no séc. XVII o bispo James Ussher chegou a data da criação do mundo como 4004 a.c.

O surgimento da Geologia

Deixando de lado a polêmica acerca da contribuição da filosofia cristã, passamos a investigar as origens dos modernos métodos de determinação da idade da Terra. Esta se deveu fundamentalmente no ocidente à Revolução Industrial, que ao escavar túneis e aprofundar cada fez mais as minas de carvão conseguiu trazer à luz um passado antes quase desconhecido, os fósseis, sendo estes os precursores para a revolução na determinação da idade da Terra.

Um dos primeiros geólogos a interpretar tais achados foi Abraham Gottlob Werner, verificando que sequências de camadas de fósseis e rochas apareciam na mesma ordem em locais muito distintos em várias partes da Inglaterra. Dai começam as primeiras idéias de como interpretar tais camadas e assim associá-las a passagem do tempo. O aparecimento dos fósseis logo colocou as doutrinas cristãs da criação em cheque, além das descobertas de novas espécies nas novas terras, antes não contabilizadas na Bíblia.

Disto veio o grande problema, “Como poderia ter ocorrido tudo isso no curto período de tempo mencionado pelo bispo Ussher, seis mil anos?”. A igreja encontrou como resposta ao paradoxo a teoria do catastrofismo, hipótese na qual as transformações geológicas em grande escala tinham ocorrido subitamente, em consequência de cataclismos, o que explicava a extinção das espécies sem violar a cronologia Bíblica, apesar do que tal teoria não satisfazia , em si, o problema da própria extinção.

Em contrapartida o geólogo Charles Lyell sustentava a idéia do uniformitarismo, segundo o qual as transformações geológicas e biológicas ocorriam por causas naturais e lentas. Mas Lyell não foi o primeiro a propor tais idéias. O químico James Hutton, ao perceber marcas de erosão em rochas, percebeu os processos lentos e graduais por que passou a Terra. Além disto as novas idéias também vinham de outras partes mais longínquas, como o espaço!

O naturalista francês Georges Buffon argumentou que a Terra começou como uma bola em fusão, que se resfriou lentamente, o que torna esta muito mais velha do que se imaginava (estimativa em 500 mil anos).

Porém foi Lyell quem demonstrou a força da teoria uniformitarista, coletando provas ao redor do mundo e percebendo que o planeta é semelhante a “uma entidade palpitante”, que está em constante movimento.

A principal argumentação de Lyell em defesa do uniformitarismo era o fato deste estar em aberto e se aperfeiçoar enquanto o catastrofismo era fechado, sendo que Lyell foi uma grande influência para Darwin e suas novas idéias sobre a evolução, contribuindo para e quebra definitiva do velho paradigma de tempo.

Suas descobertas de fósseis marinhos em montanhas, mamutes congelados na Sibéria e a teoria de formação de vulcões e montanhas foram passos fundamentais na consolidação das novas idéias. A imensa massa de argumentos que surgia conforme novas pesquisas e descobertas ocorriam, derrubou a teoria catastrofista e deu as primeiras idéias sobre um mundo muito mais velho do que se pensava. De milhares de anos poucos passaram a ser milhões.

*Este é o título original dado por Timothy Ferris no capítulo 12 de seu livro.

Referência: Timothy Ferris, O despertar na Via Láctea – Uma história da Astronomia, Editora Campus

A Idade da Terra*

Como poderiam a teoria da Evolução e a Física, ramos da ciência aparentemente tão distantes, contribuírem para a determinação da Idade da Terra? Ao final deste texto descobriremos suas conexões, mas vamos começar falando um pouco sobre a “caminhada” de Darwin em direção a teoria sobre a origem das espécies que habitam nosso planeta.

A evolução da Evolução

Ao contrário do senso comum, muitas das descobertas do mundo das ciências não ocorre por “revelação”, ou seja, o pesquisador não acorda uma manhã com toda a teoria formada (salvo algumas folclóricas exceções). Ela na verdade é fruto de muito trabalho, tempo, troca de ideias e por que não dizer influências ou inspiração vindas de outras fontes. Este é o caso de Darwin. Foi dentro do Beagle, o navio que levou Darwin a dar a volta ao mundo em uma missão geográfica da coroa britânica, que teve contato com uma de suas maiores, se não a maior, influência, o livro “Princípios de Geologia” de Charles Lyell. E foi munido das ideias de Lyell e de seu interesse por cada criatura e planta que encontrava que Darwin percorreu durante 5 anos a América do Sul, Pacífico e Oceano Índico colocando-as em teste.

A comprovação das observações feitas por Lyell de conchas marinhas no alto de montanhas no Chile, a observação da elevação do solo por um terremoto e a formulação de uma teoria dos atóis no Pacífico, originadas segundo ele de vulcões que desmoronaram e depois confirmadas pelos testes nucleares na região, foram alguns dos elementos que o levaram a escrever “A Origem das Espécies”. Assim, como vários pesquisadores de sua época, Darwin “entrou criacionista” no Beagle, e saiu com dúvidas, depois de ver tudo que viu.

Mas a teoria como foi apresentada não nasceu na viagem em si, mas também em leituras antes e depois desta. Seu avô, Erasmo Darwin, já havia elaborado um tratado com ideias sobre a possibilidade de que os seres vivos poderiam ter se originado de um ancestral único, além de estar a par das idéias de transmissão das características adquiridas em vida para a prole, defendida por Jean Baptiste de Lamarck. Também conhecia os trabalhos do economista Thomas Malthus sobre a tendência da maioria das espécies de se reproduzir além da capacidade do meio ambiente, além do livro de Lyell, é claro, já citado anteriormente.

Podemos expressar sua teoria em três premissas e uma conclusão:

  1. Cada membro de uma espécie é diferente do outro. Estas diferenças geralmente são mínimas, sutis, mas que podem, em certos casos, beneficiar um membro mais do que outro.

  2. Todas as criaturas vivas tendem a produzir mais descendentes do que o ambiente pode sustentar.

  3. As diferenças entre indivíduos, combinadas com as pressões ambientais, afetam a probabilidade de determinado indivíduo sobreviver o bastante para transmitir suas características genéticas.

A conclusão é que a seleção natural leva à origem de novas espécies.

Porém esta origem se dá após muitas gerações de indivíduos dentro da mesma espécie, que ao se tornar cada vez mais e mais diferente do ramo primordial acaba por não mais conseguir gerar proles férteis ao se acasalar com parentes de outros certos grupos. Neste ponto Darwin estabeleceu que uma nova espécie surgiu.

“Durante a modificação dos descendentes de qualquer espécie, e durante a luta incessante de todas as espécies para aumentar seus números, quanto mais diversificados se tornam os descendentes, maior será sua possibilidade de êxito na luta pela vida. Assim, as pequenas diferenças que distinguem variedades da mesma espécie tendem a aumentar constantemente, até igualar as diferenças maiores entre espécies...”

Os receios, a publicação e as críticas

Apesar da essência de sua teoria estar pronta num ensaio de 230 páginas em 1844, postergou sua publicação durante 15 anos. São muitas as especulações sobre tal relutância em publicar o trabalho, como seu estado permanente de enfermidade (Especulações sobre seu constante estado de doença é que um inseto que o picou na América do Sul “grande inseto negro dos pampas tivesse lhe transmitido a doença de chagas), mas o mais provável é que Darwin temia uma reação enérgica das opiniões contrárias, principalmente da Igreja.

O fato decisivo veio com uma carta em 1858 de um naturalista chamado Alfred Russel Wallace, que empregou uma viagem nos moldes da que o próprio Darwin fez e chegou a conclusões muito parecidas, enviando-lhe um esboço de seu trabalho.

Assim Darwin se sentiu no momento, também influenciado por Lyell e Hooker, a finalmente publicar seu trabalho, um livro extremamente detalhado e “auto-consistente”. Logo vieram as críticas como esperado, principalmente da Igreja, mas como cita Ferris “em grande parte tão retórica que passou à volta da Origem como água em torno de uma pedra”. A teoria da evolução então trouxe mais um elemento ao tema “a idade da Terra”, já que esta exigia não milhares, mas milhões ou bilhões de anos.

É interessante observar que Darwin era tido pelo pai e por alguns professores como “preguiçoso”, que gostava apenas de diversão e colecionar pedras, plantas e insetos, e que, segundo seu pai “será uma vergonha para você mesmo e toda a família”, e até hoje falamos dele!

Porém, segundo Ferris, “Embora a evolução de Darwin e a geologia de Lyell deixassem implícita a velhice da Terra, não a provava. Esta tarefa coube as físicos [...]” e esta se deu inicialmente pela termodinâmica.

Grandes mentes sobre um grande problema

A idéia geral de se utilizar a termodinâmica para a datação da idade da Terra é assumir que esta teve origem como uma massa incandescente, e que vem se resfriando através dos séculos. As primeiras experiências com este enfoque remontam de 1770 mas com resultados muito imprecisos (estimativa de cerca de 168.000 anos no máximo) e no século XIX nomes de peso da física se debruçaram sobre o problema (Lorde Kelvin, Hermann Von Helmholtz, Rudolf Clausius, Ludwig Boltzmann), porém com foco de estudos não na Terra, mas no Sol.

Estudar o Sol era supor que este e a Terra foram formados aproximadamente ao mesmo tempo. Helmholtz propôs que a energia que fazia o Sol brilhar era a contração gravitacional, estimando sua idade entre 20 a 40 milhões de anos. Apesar das novas estimativas de tempo serem muito maiores, os defensores da Evolução precisavam de muito mais tempo, porém Lorde Kelvin com sua autoridade e nome defendia tais idéias, apesar de considerar a possibilidade de que a contração gravitacional não fosse a única força atuante no Sol: “não digo que não possa haver leis ainda não descobertas”.

Mas eis que as descobertas sobre a radioatividade a partir de 1895 com Conrad Röntgen, Becquerel, os Currie, Ernest Rutherford e outros vieram a preencher a lacuna que Lorde Kelvin havia “profetizado”! O Sol se mantém ativo pela ação da força nuclear forte, envolvida no processo de fusão nuclear principalmente do hidrogênio e hélio, e que o tem mantido por cerca de 5 bilhões de anos. A desintegração nuclear, ou radioatividade, de outra forma, mantém a Terra aquecida, além do núcleo em fusão do globo.

Juntamente com estas descobertas abriu-se um novo campo de pesquisa, a datação por radioatividade, tanto de pedras como de material orgânico (por carbono 14). Na atualidade assume-se como aproximadamente 4,6 bilhões de anos a idade da Terra, obtida através da datação de rochas lunares.

Desta forma a evolução de Darwin e a Física, juntas, tornaram auto-consistente a idéia de que a Terra é muito mais antiga do que poderia se imaginar.

*Este é o título original dado por Timothy Ferris no capítulo 13 de seu livro.

Referência: Timothy Ferris, O despertar na Via Láctea – Uma história da Astronomia, Editora Campus

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Ciência: Uma Caixa de Pandora ?

Diz a mitologia grega que ao ser aberta, a Caixa de Pandora libertou todos os males que vemos se abaterem sobre a terra. Será que a ciência é também uma espécie de caixa, que ao ser “aberta” pode liberar males que a natureza antes escondia?

Imagino ser pertinente tal questão pelo fato de que o conhecimento científico está intimamente ligado a criação de uma infinidade de dispositivos militares, sem citar interesses econômicos perniciosos. O fato mais marcante e famoso, e talvez o mais clichê, que ilustra esta visão é, no século passado, a criação das bombas atômicas de fissão e de hidrogênio e a ligação de vários cientistas com o projeto Manhattan, além da famosa carta de Einstein para o presidente americano Roosevelt.

Mas outro registro interessante, e muito menos conhecido pelo público, são as considerações do físico Pierre Curie acerca das potencialidades da “nova” descoberta que este e sua esposa, Marie Curie, faziam no final do século XIX e início do XX. Em 1903, quando ambos receberam o prêmio Nobel por suas pesquisas com Urânio, Rádio e Polônio (estes dois últimos elementos foram descobertos pelo casal), Pierre Curie encerrou seu discurso com as seguintes palavras:

“Pode-se ainda conceber que, em mãos criminosas, o rádio venha a tornar-se bastante perigoso, e aqui podemos indagar-nos se é vantajoso para a humanidade conhecer os segredos da natureza, se está madura para usufruir desses segredos da natureza ou se esse será nocivo. O exemplo das descobertas de Nobel é característico, os poderosos explosivos têm permitido aos homens executar tarefas admiráveis. São também um meio terrível de destruição nas mãos dos grandes criminosos que arrastam os povos para a guerra. Estou entre aqueles que pensam, como Nobel, que a humanidade extrairá mais bem do que mal das novas descobertas.”

Pierre Curie parece ainda carregar um sentimento positivista da ciência e da humanidade, uma visão de certa forma comum e “romântica” aos cientistas que viveram antes da primeira grande guerra. A mudança de tal sentimento pode ser notada no livro “O MAL-ESTAR NA CIVILIZAÇÃO” de Sigmund Freud (1929).

Mas podemos realmente dizer que a ciência é um grande mal para humanidade? Podemos coloca-la em cheque de tal forma a lhe atribuir todos os males atuais e do passado recente? Me vejo obrigado a fazer uma analogia, não para explicar, mas para nos fazer refletir, uma analogia utilizando a faca extremamente afiada.

Poderíamos dizer que a faca é um instrumento perigoso pois pode ferir a outros em mãos inescrupulosas, pode ferir em (e as) mãos não habilidosas ou desajeitadas, mas ela pode fazer um jantar maravilhoso nas mão de um mestre.

Também é injusto atribuir aos cientistas a máscara de cavaleiros do Apocalipse, quando é sabido que a esmagadora maioria destes trabalha com aplicações civis e/ou de conhecimento puro.

Além disto é inegável a quantidade de benefícios em todas as áreas, que a pesquisa tem proporcionado à humanidade (apesar do que mesmo com todas as suas conquistas as questões básicas humanas permanecem). Por isto casos isolados devem ser sempre vistos com cautela. A mesma descoberta da radiação que foi o germe para o desenvolvimento de armas de destruição em massa, teve aplicações médicas apenas alguns meses depois de sua descoberta. Marie Curie mesmo, durante a Segunda Grande Guerra, organizou um serviço de ambulâncias equipadas com aparelhos radiológicos, levando inclusive sua filha como assistente.

Assim a ciência é como qualquer construção humana, as intenções é que guiam suas utilizações e consequências, e não a descoberta em si, que nada mais é do que a revelação de uma das infindáveis facetas da natureza.


Referência:
Emilio Segrè, Dos Raios X aos Quarks – Físicos modernos e suas descobertas – Editora Universidade de Brasília

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Eureka! Será que Arquimedes realmente falou?

Diz a popular história que na antiga Grécia um tirano chamado Hiero suspeitou que o ourives o havia enganado na confecção de uma coroa, utilizando nela prata em vez de somente ouro. Foi então que este recorreu a Arquimedes, um dos maiores gênios da antiguidade, a fim de descobrir se o tirano havia realmente sido enganado.
Um detalhe: a coroa não poderia ser destruída para se realizar tal comprovação!

Bom, a história nos conta que este problema afligiu Arquimedes por muito tempo e que o problema foi finalmente resolvido quando ao se banhar percebeu que ao entrar na banheira, uma parte da água era deslocada para fora. Eureka! teria dito Arquimedes. Estava resolvido o problema.

Como o volume de água deslocada era proporcional ao volume do corpo que nela submergia, Arquimedes pôde verificar se o volume da coroa correspondia ao peso de uma mesma coroa feita somente com ouro, já que a prata por ser mais leve teria de ser aplicada em maior quantidade na confecção da coroa para atingir o mesmo peso de uma coroa somente de ouro. A comparação entre a quantidade de água deslocada seria a solução.

Muitos séculos depois o mundo associa a palavra à descoberta, ao "Insight" como dizem, mas será que realmente Arquimedes disse Eureka! ?

Chris Rorres, um matemático da Universidade da Pensilvânia, afirma que a frase muito provavelmente não foi cunhada por Arquimedes, mas que a história pode ter sido inventada por Vitruvius, um escritor romano.

É provável que nem a história do desafio do Tirano seja real, mas sabe-se que realmente Arquimedes realizou vários estudos sobre o volume de objetos.

Então correr pela cidade gritando Eureka!, como diz a história, talvez seja mais um componente de Vitruvius para "apimentar" um de seus livros!

Texto baseado na edição de 08 de Agosto de 2007 da revista Scientific American